Homofobia #3

22.7.16

O post de hoje é continuidade do texto colaborativo com um velho amigo.
Por: Yureta (Yuri Sant’Anna da Silva)

Ser homossexual é lidar com um constante processo de negação e repressão sexual. É perceber que sua sexualidade é repulsiva aos olhos da sociedade e por isso é preciso escondê-la de todos. Quando as aparências já não dão conta de aliviar as dores, talvez, com muita sorte, seja possível ter uma vida minimamente vivível fora do armário, desde que a pessoa se comporte da maneira que a norma social diz que um gay deve agir para que ele seja “aturado” no meio heterossexual, porque aceita sabemos que ela jamais será integralmente. Eis aí o modelo de homossexual que chamamos de “heteronormativo”, que é o gay que não parece gay, de acordo com o que a nossa sociedade diz que é “parecer gay”. O que busca de todos os modos emular a aparência e o comportamento do “macho-alfa”, inclusive reproduzindo muitos dos seus preconceitos. Além dessa castração comportamental, se me permitem chamar dessa maneira, é preciso lidar também, dento das especificidades de cada caso, com o terrorismo psicológico praticado por figuras que deveriam acolher a diversidade, como educadores, profissionais de saúde e familiares. Nesse processo você enfrenta a tentativa imposta de “consertar-se” e, resistindo a ela, se depara com a deslegitimação da sua humanidade. Agora você está declaradamente na margem. E onde quer que vá será visto dessa maneira, como um marginal. Mesmo nos lugares que se dizem inclusivos e entre pessoas que se declaram “mente aberta”, sempre existirá um elemento de contraposição para lembrar-te do teu lugar. 

“Sabe, não sou muito chegado a gays, mas você até que é gente boa” 

“Não tenho nada contra gays, mas...” 

“Você é um gay legal, mas...” 

“Nossa, você é um gay inteligente” E sempre sua sexualidade será encarada com pressupostos negativos que podem ou não ser minimizados de acordo com seu esforço pessoal em ser extraordinariamente competente em suas relações interpessoais para “compensar” esse “erro”, esse “desvio”, essa “aberração”. Os juízos de valor acerca de indivíduos lidos como degenerados, ou seja, que estão fora do padrão idolatrados pelo senso comum, possuem seus espaços também nas instituições, por isso dizemos que a opressão é estrutural, os indivíduos apenas reproduzem o que sai da estrutura. Pense em quantos espaços são negados a pessoas com sexualidade hétero-divergente assumidas. Nos tantos constrangimentos que nos convidam a sair de determinados ambientes. Na falta de representatividade que nos dignifique. Na negligência do Estado que atira dezenas de nós às ruas e na ausência de amparo familiar que não suaviza esse dano. Pense em quantas travestis são mortas porque veem na prostituição a única forma de sustento, afinal, mesmo que ela resista às duras violências lançadas pelo corpo discente e docente das instituições de ensino, quem contrataria uma profissional travesti? Ou uma mulher transexual? Um homem trans? Qualquer que seja o indivíduo que exprima uma identidade de gênero fora do padrão? Agora me responda com sinceridade, em que essas ações, que são cotidianas, se diferenciam do massacre em Orlando? Há uma natureza diferente em cada uma delas ou muda-se apenas o modo e a intensidade com a qual se aplicam?

Continua...

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1 comentários

  1. É tão triste quando existe um "mas" na frase de algum preconceituoso/homofóbico. O ser humano se supera cada vez mais, é incrivel como ainda conseguimos ser tão baixos. Espero que no futuro as pessoas consigam ser mais humanas.
    Incrivel seu texto.
    Beijão, Jardim de primavera

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